sexta-feira, 5 de maio de 2023

Sem Bolsonaro, Brasil salta 18 lugares em ranking de liberdade de imprensa


O Brasil subiu 18 lugares no ranking de liberdade de imprensa no mundo. O principal motivo: o fim do governo de Jair Bolsonaro. 

A conclusão é da entidade Repórteres Sem Fronteiras que, anualmente, publica sua avaliação sobre a situação da liberdade da imprensa no mundo. O Brasil continua em uma situação delicada. Mas deixou de desabar na classificação, como vinha ocorrendo nos últimos anos.

"Os ataques do ex-presidente Jair Bolsonaro à mídia continuaram até o último dia de seu mandato, no final de 2022. A chegada do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva restaurou a estabilidade das relações entre a mídia e o governo. Mas a violência estrutural contra jornalistas, a propriedade altamente concentrada da mídia e os efeitos da desinformação ainda representam grandes desafios para a liberdade de imprensa" (Repórteres Sem Fronteira).

No ranking publicado nesta quarta-feira, o Brasil aparece na posição de número 92, entre 180 países avaliados. Em 2022, a classificação mostrava o Brasil na 110ª posição. 

O informe é publicado na data em que a ONU comemora o dia mundial da liberdade de imprensa. 

Para o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, "toda a nossa liberdade depende da liberdade de imprensa". "A liberdade de imprensa é a base da democracia e da justiça. Ela fornece a todos nós os fatos de que precisamos para formar opiniões e falar a verdade ao poder. E, como o tema deste ano nos lembra, a liberdade de imprensa representa a própria força vital dos direitos humanos", disse. "Mas em todos os cantos do mundo, a liberdade de imprensa está sendo atacada. A verdade é ameaçada pela desinformação e pelo discurso de ódio que procura borrar as linhas entre fato e ficção, entre fato e ficção, entre ciência e conspiração.

Impacto do bolsonarismo 

Para os autores da classificação, "o governo Bolsonaro de 2019-2022 foi extremamente desafiador para a imprensa brasileira". "O presidente insultou regularmente jornalistas e a mídia e mobilizou exércitos de apoiadores nas mídias sociais como parte de uma estratégia afinada de ataques coordenados que visavam desacreditar a imprensa, que foi rotulada como inimiga do Estado", afirmou. 

"Bolsonaro deu continuidade a essa estratégia como ex-presidente, com o objetivo de garantir que seus apoiadores não acreditem nas acusações de corrupção feitas contra ele e sua família, nos resultados das eleições que levaram Lula da Silva ao poder e nas ações do novo governo", disse. 

Segundo a RSF, enquanto o Presidente Lula tenta restaurar os princípios democráticos ao lidar com a mídia, ele é "constantemente desafiado pelos apoiadores de Bolsonaro e pelos partidos de extrema direita, que continuam a tentar desestabilizar o governo". 

A questão, de acordo com a entidade, é a instalação de um clima de hostilidade contra a imprensa, a partir das ações do bolsonarismo. 

"A retórica agressiva em relação aos jornalistas e à imprensa adotada pelo governo Bolsonaro de 2019 a 2022 alimentou uma atitude cada vez mais hostil e desconfiada em relação aos jornalistas na sociedade brasileira", afirmou.

"A ampla disseminação de desinformação continua a envenenar o debate público. O Brasil continua altamente polarizado, e os ataques da mídia social à imprensa abriram caminho para repetidos ataques físicos contra jornalistas, vistos em particular durante as eleições de 2022 e a tentativa de insurreição por apoiadores de Bolsonaro no centro de Brasília em 8 de janeiro de 2023", disse. 

Líderes e opressores 

De acordo com o levantamento, a Noruega é onde a liberdade de imprensa é mais respeitada no mundo. Oslo lidera o ranking pelo sétimo ano consecutivo. O segundo lugar é da Irlanda, seguida pela Dinamarca. A classificação ainda aponta que os três piores locais para a imprensa estão na Ásia. O governo do Vietnã ocupa a 178ª posição, enquanto a China está no lugar de número 179 por ser "a maior prisão do mundo para jornalistas". A lanterna do ranking fica com a Coreia do Norte. 

O que mais diz a entidade sobre o Brasil: 

Segurança 

Durante a última década, pelo menos 30 jornalistas foram mortos no Brasil, o segundo país mais mortal da região para repórteres durante esse período. Os mais vulneráveis são blogueiros, apresentadores de rádio e jornalistas independentes que trabalham em municípios de pequeno e médio porte, cobrindo corrupção e política local. O assédio online e os ataques a jornalistas, especialmente mulheres, estão aumentando. Pelo menos três assassinatos foram diretamente ligados ao jornalismo em 2022, incluindo o assassinato do repórter britânico Dom Phillips enquanto ele investigava crimes ambientais contra comunidades indígenas na Amazônia. 

Concentração 

Apesar do fim dos ataques por parte do governo, a entidade destaca que o cenário da mídia brasileira é marcado por uma "alta concentração de propriedade de mídia do setor privado, caracterizada por uma relação quase incestuosa entre centros de poder e influência política, econômica e religiosa". 

"Dez grandes conglomerados corporativos, de propriedade do mesmo número de famílias, dividem o mercado. Os cinco maiores são Globo, Record, SBT, Bandeirante e Folha. A independência editorial dos meios de comunicação regionais e locais é fortemente comprometida pela publicidade governamental, e a mídia estatal foi submetida a uma grande interferência governamental durante o governo Bolsonaro", diz. 

Estrutura legal 

"A Constituição Federal de 1988 garante a liberdade de imprensa e, em geral, a estrutura legal brasileira favorece a liberdade jornalística. Entretanto, as leis de transmissão e telecomunicações são antiquadas, permissivas e ineficientes. Os repórteres e a mídia são frequentemente submetidos a processos judiciais abusivos por parte de políticos e interesses comerciais, que usam sua influência para intimidar a imprensa", alerta. 

Contexto econômico 

"Os principais grupos de mídia estão tentando reinventar seus modelos de negócios diante da crise global da imprensa causada pelo advento das plataformas online. Essas corporações investem em vários outros setores de negócios, aumentando a possibilidade de conflitos de interesse e perda de independência editorial. Enquanto isso, a imprensa local está cada vez mais enfraquecida e os meios de comunicação online estão enfrentando problemas de viabilidade", completa.