quinta-feira, 24 de junho de 2021

"Ser humano não é rebanho. Poderíamos ter salvo 120 mil vidas perdidas para Covid-19", afirma médica diretora da Anistia Internacional


Em depoimento aos senadores da Covid-19, nesta quinta-feira(24), a diretora executiva da ONG Anistia Internacional, Jurema Werneck, afirmou que estudos científicos apontam que o Brasil poderia ter evitado 120 mil mortes provocadas diretamente pelo novo corona.

"No primeiro ano da pandemia, 120 mil vidas perdidas para a covid-19 poderiam ter sido evitadas, se uma política efetiva com medidas não farmacológicas tivesse sido implementada. E não são números, são pessoas. Poderíamos ter salvado vidas", afirmou a diretora.

A médica foi enfática ao rebater a estratégia do governo federal em promover a chamada 'imunidade de rebanho', expondo as pessoas ao  vírus. "A noção de imunidade de rebanho tem um efeito perverso sobre a sociedade. Quando se usa o termo técnico 'imunidade de rebanho' tem um efeito perverso sobre a sociedade. Ser humano não é rebanho. A gente está falando de imunidade coletiva. Mas quando a gente pensa no rebanho, qualquer pecuarista ou veterinário, para garantir a imunidade do rebanho, ele vacina seu gado", lembrou.

Com base no cruzamento de dados oficias no país, ela garantiu que "podemos afirmar que em 52 semanas, a pandemia provocou, em um ano, 305 mil mortes a mais do que o esperado, observando a média dos últimos anos. Não são dados tirados da cartola nem do bolso de ninguém. Neste caso, são mortes causadas direta e indiretamente pela pandemia ou por conta da presença da pandemia, como a de pessoas que morreram porque não tiveram atendimento porque encontraram o sistema de saúde lotado. São 305 mortes em excesso e , dessas, poderíamos ter evitado 120 mil, se tivéssemos agido como era preciso", afirmou. 

Jurema Werneck afirmou que já no primeiro ano da pandemia quando ainda não havia vacinas, poderiam ter sido tomadas "medidas básicas em saúde pública, a primeira, vigilância epidemiológica, a exemplo da testagem em massa da população. Também seria importante tomar as medidas não farmacológica, como uso de máscara e distanciamento. Estudos mostram que essas medidas provocam a redução de 40% de no poder transmissão do vírus e fazem a diferença para evitar essas mortes. Mas há pessoas usando máscaras surradas, que ganharam há um ano".

Ela frisou que não é verdadeira a ideia que "o vírus é democrático'. "Até novembro do ano passado, dentro desse universo de 14% da população que foi testada para a Covid-19, "pessoas com renda maior que quatro salários mínimos consumiram quatro vezes mais testes do que as pessoas que receberam  menos de meio salário mínimo. O vírus procura oportunidades, mas as injustiças, as desigualdades, as inequidades fizeram a diferença. A maioria das pessoas que morreram no Brasil eram negras, eram indígenas, eram pessoas de baixa renda e de baixa escolaridade", disse.

A médica foi direta ao relacionar a responsabilidade do presidente da República  com as mortes e pregou união para combater a pandemia. "Já em maio de 2020 o Alerta lançou um manifesto com 'Mortes evitáveis por covid-19 no Brasil", já naquele momento dizíamos que era preciso ações contundentes para salvar vidas no Brasil. Mortes evitáveis tem responsabilidades atribuíveis. Faltou liderança nacional. Numa pandemia, a responsabilidade é da liderança nacional, porque tem todas as informações e consegue administrar [o enfrentamento]. Evidentemente é preciso união, que não haja essa política do salve-se quem puder, do cada um por si, nem de um contra os outros. É preciso de uma liderança nacional que cumpra as medidas necessárias para salvar vidas", defendeu diretora executiva da ONG Anistia Internacional, Jurema Werneck.


Imagem: internet TV Senado. 
Da Redação, Alberico Cassiano.