quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Vereadores negros apontam racismo em hino gaúcho por seus versos sobre escravos

A ideia de que um povo é escravizado por não ter virtudes está num dos versos no hino do Rio Grande do Sul. Depois de enaltecer as “façanhas” que devem servir de “modelo a toda terra”, a composição diz que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Desde, pelo menos, a década de 1970, o movimento negro discute o racismo da letra.

Porém, o debate em torno da canção oficial voltou à tona desde que cinco vereadores de Porto Alegre, todos negros e em primeiro mandato, permaneceram sentados quando o cântico tocou durante a cerimônia de posse do Legislativo municipal, no dia 1º de janeiro. A atitude foi um protesto contra o racismo apontado por eles no hino gaúcho.


“Acho que é a primeira vez que cinco políticos se posicionam publicamente em um ambiente parlamentar pela modificação dessa estrofe. Isso é reflexo da nossa representatividade. Ter negros na política vai fazer com que a sociedade olhe para temas que antes nunca entraram na pauta da política institucional”, diz Matheus Gomes, do PSOL, um dos vereadores que permaneceu sentado.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho - MTG, se manifestou, em nota, afirmando que os versos abordam a “submissão da então província de São Pedro ao Império, no período da Revolução Farroupilha. E nada tem de discriminatória”.

A vereadora Nádia gerhard,(Dem) defende a mesma posição do MTG. Durante a sessão, cobrou que os vereadores respeitassem os símbolos do estado. “Não tem nada de racismo, é uma forçação de barra que alguns vereadores que se dizem da bancada negra estão fazendo com um símbolo e que o MTG já escreveu uma nota dizendo que não tem conotação racista em momento algum”, disse a vereadora. Ela reforça o entendimento da entidade de que o trecho fala sobre a submissão da província à corte.

Também chamado de Guerra dos Farrapos, o conflito armado de caráter republicano durou dez anos, de 1835 a 1845. O início da guerra perdida, em 20 de setembro de 1835, é comemorado anualmente pelos gaúchos. A letra do hino foi composta antes do fim do conflito por Francisco Pinto da Fontoura.

Outras versões circulavam, mas a de Fontoura se manteve a mais popular. Por isso, cerca de cem anos depois do conflito, durante os preparativos do centenário da guerra, foi escolhida como hino oficial do estado. A lei que oficializou a música definitivamente é de 1966.

A história da participação negra na Revolução Farroupilha, porém, é ainda pouco recordada. Centenas de africanos escravizados foram incorporados à divisão dos Lanceiros Negros, do Exército gaúcho, com a promessa de ganharem liberdade ao final do conflito. Mas os negros foram traídos numa emboscada conhecida como Massacre de Porongos, na madrugada de 14 de novembro de 1844. Centenas foram assassinados. Os que escaparam foram levados à corte, no Rio de Janeiro, para servirem como escravos.

Da Folha de São Paulo.