terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Covid-19 causa distúrbios neurológicos até em pacientes com sintomas leves, alerta neurocientista

A retomada do avanço da Covid-19 registrada a partir de novembro, ameaça levar ao crescimento do número de pessoas acometidas por distúrbios neurológicos, de depressão a problemas de memória. O alerta é do neurocientista Daniel Martins-de-Souza, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ele é um dos coordenadores do grupo de cientistas de várias instituições brasileiras que descobriu alterações na estrutura do córtex cerebral, mesmo em pessoas com sintomas leves de Covid-19. O mesmo grupo comprovou que o coronavírus infecta células cerebrais e afeta suas funções.

O córtex é a região mais nobre e complexa do cérebro. Está ligado a funções fundamentais, como consciência, memória, linguagem, cognição e atenção. Alterações no córtex acontecem em doenças neurodegenerativas graves, como os males de Alzheimer e Parkinson. E, por isso mesmo, os cientistas pretendem acompanhar as pessoas examinadas no estudo de Covid-19 por dois anos, para detectar se houve sequelas.

— A Covid-19 pode afetar o sistema nervoso central. Sabemos que 30% das pessoas com Covid-19 apresentam sintomas neurológicos, isso é muito grave. Pacientes com sintomas leves apresentam alterações na estrutura cortical, e isso está associado à depressão, ansiedade e até mesmo a déficits cognitivos. Com mais gente adoecendo, mais pessoas sofrerão esses problemas — destaca Martins-de-Souza.

O trabalho brasileiro também mostrou que o Sars-CoV-2 é capaz de infectar e se replicar nos astrócitos, células de suporte e as mais numerosas do sistema nervoso central. Isso foi observado por meio de autópsias de vítimas da Covid-19. O resultado pode ser uma gama de problemas, tão variados quanto dificuldade de raciocínio, perda de memória e depressão. 

As alterações no córtex de pessoas com Covid-19 branda foram identificadas por meio de exames de ressonância magnética. Os exames foram realizados, em média, dois meses após o surgimento dos primeiros sintomas da Covid-19. E um terço dos participantes ainda apresentava nesse período problemas neurológicos ou neuropsiquiátricos, como ansiedade, fadiga, dor de cabeça, depressão, perda de paladar, de sono e do desejo sexual. 

Foram identificadas diferentes alterações na estrutura cortical, como aumento ou perda de espessura. O próximo passo do trabalho será descobrir se essas alterações são temporárias ou permanentes.

— Esperamos que nosso trabalho sirva como alerta. Nossos dados mostram o quão perigoso é se expor ao coronavírus ou “querer pegar logo isso para ficar livre”. Mas, se nessa de pegar logo, a pessoa sofre uma complicação neurológica? Nossa pesquisa mostra que é melhor fugir dessa ideia. Não dá para predizer quando a “gripezinha” vai se transformar num distúrbio neurológico. Não tem como saber — frisa Martins-de-Souza.

Os dados produzidos pelo estudo oferecem informações importantes para tratar a Covid-19, mas a ciência ainda está longe de compreender totalmente a doença. 

 A ciência ainda não desvendou os mecanismos de ataque do coronavírus ao sistema nervoso central. Avançamos muito, mas essa é uma doença complexa. Temos muito trabalho à frente — frisa o neurocientista Martins-de-Souza.

De O Globo.