quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Centenário de Clarice Lispector: escritora que teve vida e obra ligadas ao Recife se torna cidadã pernambucana


Há exatos 100 anos, nascia na Ucrânia pós-guerra civil Clarice Lispector, cânone da literatura brasileira. Diante da perseguição aos judeus na época, a escritora chegou, aos 2 anos, ao Nordeste do Brasil, onde viveu até os 14 anos de idade. No dia de seu centenário, celebrado nesta quinta-feira (10), a autora se torna cidadã pernambucana, título concedido pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). 

Clarice Lispector nasceu em 1920, numa família judaica russa e tinha duas irmãs mais velhas. Em 1922, a família, que havia perdido os bens na guerra civil, decidiu sair da Europa para o Brasil. Maceió (AL) foi o primeiro destino e, poucos meses depois, os cinco se instalaram na capital pernambucana. 


O título de Título Honorífico de Cidadã Pernambucana post mortem foi concedido pelo presidente da Alepe, deputado Eriberto Medeiros(PP). O projeto, de autoria de Marco Aurélio Meu Amigo (PRTB), foi solicitado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). No entanto, a Alepe informou que não haverá solenidade para concessão do título devido à pandemia do novo coronavírus.

Neste ano, ela também foi reconhecida como patrona da literatura de Pernambuco, num projeto de autoria do deputado estadual Professor Paulo Dutra (PSB). 

De acordo com a Fundaj, a solicitação para que Lispector se tornasse cidadã pernambucana foi feita devido às constantes evocações da autora à cidade do Recife, em algumas de suas obras mais importantes. Ela é a única mulher a compor o conjunto de 12 estátuas que compõem o Circuito da Poesia, homenagem feita aos escritores que tiveram a vida e a obra ligadas a Pernambuco. 

A estátua fica em frente a um sobrado na Praça Maciel Pinheiro, no Centro do Recife, onde Clarice Lispector aprendeu a ler, escreveu os primeiros poemas e viveu a maior maior parte de sua infância e adolescência. A casa, que está em processo de tombamento, encontra-se atualmente em situação de abandono, em processo de tombamento.

Para a arquiteta, urbanista e professora do curso de arquitetura da Universidade Católica de Pernambuco Amélia Reynaldo, o Recife deve tanto a Clarice Lispector quanto a própria escritora deve à capital pernambucana. No ensino primário, ela estudou na Escola João Barbalho, onde aprendeu a ler e escrever, e, aos 12 anos, foi para o Ginásio Pernambucano, onde decidiu ser escritora. 

"A Boa Vista deve muito a ela e ela deve muito ao que aprendeu na Boa Vista. Ela repetiu em palavras o que os olhos de uma menina viram no Recife. A Boa Vista era o Recife que ela imaginava. A cidade era aquilo, o deslocamento que ela fazia, o mercado, a festa das igrejas, sentar na calçada para ver o carnaval", afirmou.

Apesar de ter morado a maior parte da vida no Rio de Janeiro, Clarice Lispector se declarava pernambucana. "Felicidade Clandestina", livro lançado em 1971, é encenado na capital pernambucana. Mas, para Amélia Reynaldo, o Recife aparece nas obras dela em diversos pontos, inclusive quando não é citado. Foi no Recife que a mãe dela, Mania Lispector, morreu e foi enterrada no Cemitério Israelita do Barro. 

"O terceiro livro dela, 'A cidade sitiada', lançado quando ela tinha 29 anos, é permeado de informações sobre o Recife. Tem características, manifestações, processos que você só encontra no Recife. A praça é a Praça Maciel Pinheiro. O mercado de peixe é o da Boa Vista. O pé da escada e a sala de visitas são do sobrado onde ela morou. As portas metálicas que abrem e fecham as lojas e, claro, o banho de mar em Olinda, do qual ela fala precisamente. Ela ia de bonde tomar banho de mar", explicou a pesquisadora. 

Ainda segundo Amélia Reynaldo, a efervescência política e cultural do Recife da década de 1920 teve influência direta na formação da escritora. Isso porque era nas praças como a Maciel Pinheiro que se discutia a cidade. Os jornais, que ficavam a, no máximo, 1,5 quilômetro da casa de Clarice, ficavam presos nos postes e serviam como ponto de discussão entre os moradores. 

"O pai dela era um mascate, era uma oportunidade de perceber tudo isso. As pessoas tinham uma visão muito importante de discussão. As famílias residentes do entorno da Praça Maciel Pinheiro se reuniam para discutir a cidade e o mundo que deixaram. Aquela densidade de acontecimentos deve ter sido muito absorvida e compreendida. As discussões urbanísticas da época, a reforma urbana do Bairro do Recife e Santo Antônio tinham as atas publicadas nos jornais. Isso tudo era o Recife que Clarice vivenciou", afirmou.  

A casa onde Clarice Lispector morou, na Praça Maciel Pinheiro, pertence à Santa Casa de Misericórdia. No local, o que se vê é abandono. Sujeira, rachaduras, reboco precário e pichações são as características mais marcantes. Mesmo com as portas lacradas, é possível ver que, no primeiro e segundo andares, o teto está danificado. 

Se não fosse por um cartaz colado por algum admirador da escritora, seria difícil saber que, ali, viveu Clarice Lispector, já que a placa que contém essa informação, além de danificada, fica coberta pelos garrafões de água mineral de algum comerciante que utiliza o espaço para garantir sustento. 

Por meio de nota, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) informou que o processo de tombamento do imóvel está "prestes a ser concluído". 

A previsão é que o documento que contém o histórico, análise técnica e física do local "seja entregue ao Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC) - órgão colegiado responsável por deliberar sobre o tombamento e o registro de bens, materiais e imateriais em Pernambuco nesta quinta-feira (10)". 

A Fundarpe também informou que a responsabilidade na captação de recursos e execução dos projetos de recuperação de bens tombados fica a cargo do proprietário do imóvel, que, neste caso, é a Santa Casa da Misericórdia.

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Do G-1-PE e BBC News.