quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Jair Bolsonaro: um "mito" que atrai amores e rancores na política


Em 2015, o jornalista Matheus Leitão entrevistou pessoalmente o deputado federal Jair Messias Bolsonaro, para o livro que estava escrevendo sobre os tempos de militância clandestina dos seus pais, os também jornalistas Míriam Leitão e Marcelo Netto, no PCdoB, em 1972 e 1973. Matheus perguntou ao deputado: “Minha mãe foi colocada com uma jiboia numa sala do Exército brasileiro. E o senhor disse a seguinte frase: ‘Coitada da cobra’. O senhor reitera isso?”. Sem piscar, Bolsonaro replicou: “Reitero”. O vídeo viralizou, compartilhado pela assessoria do deputado – que gravou uma introdução na qual chamava Matheus de “pimpolho da mamãe” – e, principalmente, pelo exército de seguidores espontâneos de Bolsonaro multiplicados pelas redes sociais.

O episódio é uma boa síntese de algumas das principais características associadas a Bolsonaro. Estão ali, naquele vídeo, a defesa intransigente que Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, sempre faz da ditadura militar (a ponto de negar a sua existência), incluindo a prática da tortura; o seu estilo “curto e grosso”, marcado por posições fortes e firmes, em geral polêmicas e não raro ofensivas, acerca de minorias e simpatizantes da esquerda; a competência do deputado pelo Rio de Janeiro em usar as novas ferramentas de comunicação proporcionadas pelas redes sociais para se projetar.

DIREITA VOLVER - com os dois coturnos bem firmados no campo da extrema direita, Bolsonaro coleciona polêmicas e processos por danos morais (mais de uma condenação, inclusive) na mesma proporção em que essas posições radicais lhe rendem uma coleção de seguidores fiéis, que o idolatram, por onde passa, como um “mito”. Goste-se ou não, o fato é que o discurso extremista de Bolsonaro tem encontrado eco em uma camada da sociedade que basicamente pensa como ele e concorda com tudo o que ele diz, das posições com viés mais autoritário àquelas mais discriminatórias.

Esse nicho de bolsonaristas já o coloca, no mínimo, dentro do páreo em 2018. De acordo com a última pesquisa Datafolha, se a eleição presidencial fosse hoje, Bolsonaro, com 13% das intenções de voto, faria o segundo turno contra Lula (PT), uma polarização inusitada entre um ex-presidente de esquerda e um representante da extrema direita.

Para os fãs que o veneram, a grande virtude de Bolsonaro, além da propagada honestidade, é dizer exatamente o que pensa – e o que pensa, alegam, são “verdades”. Já para os críticos, o que Bolsonaro pensa e diz (isto é, suas “verdades”) representa um atentado permanente a direitos humanos e políticos, violações ao Estado de Direito e ataques à própria democracia. A mesma pela qual, agora, Bolsonaro quer chegar à Presidência.

ALGUMAS IDEIAS 

ÀS ARMAS - Membro histórico da bancada da bala, a favor da revogação do Estatuto do Desarmamento, Bolsonaro tem uma plataforma quase monotemática, voltada para a segurança pública. Defende a pena da morte, a redução da maioridade penal e o direito de a sociedade civil se armar livremente até os dentes, para se proteger do crime.

LIBERDADES - em entrevista em 2016, disse que, durante a ditadura, as pessoas tinham mais liberdade, pois qualquer um podia comprar uma arma de fogo na Mesbla. Não teceu considerações sobre a cassação da liberdade de expressão e de manifestação política.

ECONOMIA - LIBERAL - já admitiu entender muito pouco de economia. Suas posições na área ainda não são muito claras. De modo vago, diz-se um “liberal”. Já se posicionou contra a licença-maternidade.

INCITAÇÃO AO ESTUPRO - Foi condenado pelo STJ por ter reafirmado em 2014, da tribuna da Câmara, que só não estuprava a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia” – sugerindo que o estupro seria “privilégio” reservado às mulheres mais bonitas.

FATOS DA HISTÓRIA DE BOLSONARO

MANDATOS E SIGLAS - Nascido em Campinas, Bolsonaro tem 62 anos e está no 7º mandato na Câmara Federal pelo RJ. Eleito pelo PP, está no PSC e pode ir para o PEN.

CONDENAÇÃO - Foi condenado pelo STJ por fala dirigida à deputada Maria do Rosário (PT-RS), em dezembro de 2014, considerada “incitação ao estupro”.

“POR QUE NÃO SE CALAM?” - sua visão sobre o debate de ideias, pilar da democracia, é condensada em seu slogan que arrebata multidões: “Minoria tem que se calar!”.

ALIADO DIZ QUE BOLSONARO VAI SE “LAPIDAR” -

Principal aliado de Bolsonaro no Espírito Santo, o deputado federal Carlos Manato (SDD) admite: para chegar em condições realmente competitivas à campanha presidencial de 2018, Bolsonaro terá que passar por um processo de “polimento”.

“O que dizemos muito a ele é que ele tem que se lapidar. Às vezes ele tem atitudes muito intempestivas. E, com suas andanças pelo país, está melhorando muito nesse aspecto. Está ouvindo mais, aceitando questionamentos, participando de debates, se qualificando. Para ser candidato a presidente, ele tem que crescer em tudo. O Bolsonaro de dois anos atrás não é o mesmo de hoje. Ele está um pouco mais polido. Já foi mais incisivo. Hoje está menos explosivo.”

Essa “lapidação” referida por Manato resulta de um raciocínio pragmático: a história política ensina que os brasileiros não elegem candidatos radicais nem de esquerda nem de direita. Estes podem até se consolidar em um nicho específico do eleitorado. Mas atraem a rejeição da maioria, que prefere candidatos mais moderados. Por isso, Bolsonaro começa a tentar suavizar um pouco a imagem e o discurso extremista, aproximando-se um pouco mais do centro.

“O radicalismo não leva a nada. Uma coisa é você ser radical como deputado. Outra é como candidato à Presidência. Vivemos num Estado laico e num Estado democrático de direito. Todos têm o direito de falar. Tem minorias que precisam ser respeitadas. Tudo isso você tem que debater, mas em alto nível”, avalia Manato.

A estratégia, porém, contém um risco: ao tentar mudar sua imagem e se deslocar da extrema direita, será que Bolsonaro não pode acabar desapontando e perdendo parte do seu eleitorado fiel? Para Manato, depende. “Ele tem que mostrar um equilíbrio entre ser o Bolsonaro e continuar defendendo as ideias dele, mas com maior tranquilidade. Não pode perder as características que ele tem, de dizer o que pensa e manter posições firmes. É mudar a postura, mas sem deixar de ser o Bolsonaro.”

ENTREVISTA

"O Bolsonaro é o anti-Lula, então aquele eleitor refratário ao lulismo procura outro candidato" 
Adriano Oliveira é cientista político (UFPE)

Bolsonaro tem despontado em 2º lugar nas projeções eleitorais feitas sobre a corrida presidencial de 2018. Na última do Datafolha, ele aparece com 13% das intenções estimuladas de voto. Que fatores explicam essa adesão que o deputado federal tem conquistado por parte de um segmento relativamente considerável da sociedade brasileira?

Na minha ótica existe uma grande especulação em torno de Bolsonaro, que não está pautada em dados empíricos. Vou lhe explicar por quê. Em todas as pesquisas de intenção de voto, em 1994, em 1998, em todas as eleições majoritárias, essas pesquisas de opinião nunca captaram tendências autoritárias do eleitorado brasileiro. Durante a ditadura tinha pessoas que apoiavam a ditadura. A Diretas Já foi um movimento forte, mas nem todas as pessoas o apoiaram. Então não vejo tendências autoritárias na sociedade, porque isso sempre existiu. Muito menos vejo que o problema da segurança pública venha a criar condições para que ele tenha sucesso na eleição presidencial. Bolsonaro é uma bolha. A qualquer momento vai estourar. Para mim isso vai acontecer quando o candidato do PSDB ou do governo Temer for colocado. O que o bolsonarismo representa é o antilulismo. O lulismo ainda é forte. Lula ou o candidato do PT apoiado por ele deverá estar no segundo turno. Como a saída da crise econômica é gradual e o PSDB ainda não apresentou um candidato para o Brasil… O Bolsonaro é o anti-Lula, então aquele eleitor refratário ao lulismo procura outro candidato. Quem é o candidato que está disponível hoje? O Bolsonaro. Mesmo com a saída do presidente Lula das pesquisas, ele não cresce consideravelmente. Ele tem teto baixo, tem rejeição muito mais forte do que a intenção de voto. Ou seja, ele é uma bolha eleitoral.

Na sua opinião, ele consegue essa adesão de parte do eleitorado por causa das suas posições radicais ou apesar das mesmas?

Simples. Ele consegue esse eleitorado porque tem uma parcela do eleitorado que admira o que ele fala. Ele consegue esse tipo de eleitor porque esse eleitor existe na sociedade. Mas ao mesmo tempo esse discurso radical dele impede o crescimento dele. Com esse discurso radical, ele não encontra a média dos eleitores, não atinge a média dos valores da sociedade. Para ganhar uma eleição majoritária, você não pode ter posições extremas porque elas te dificultarão encontrar eleitores fora do seu nicho. Você precisa ter uma média, tem que ter um relativismo numa campanha, para não desagradar aos eleitores. O eleitor brasileiro não é propenso a radicalismos, tanto no âmbito da economia como no âmbito dos valores.

Sem estrutura partidária, nem apoios políticos consistentes, o senhor acha que Bolsonaro deve ter dificuldades de chegar em condições realmente competitivas ao grid de largada ou pode surpreender como um candidato praticamente avulso realmente competitivo? Mesmo sem grandes aliados nem estrutura partidária, ele tem mesmo chances reais de chegar ao segundo turno?

Ele não tem nem estrutura partidária como o PSDB e o PMDB terão. Será que ele consegue ter um desempenho melhor do que o de Geraldo Alckmin como governador de SP e mais de 30 anos de história política? Isso é desprezar o PSDB, e o PSDB não pode ser desprezado de modo algum.

Para se tornar competitivo ele fatalmente terá que adotar discurso menos radical?

Se ele maneira o seu discurso para tentar conquistar o eleitor de centro, ele perde o eleitor dos extremos, sem a menor certeza de conseguir conquistar esse eleitor de centro. Ele sai do universo de extremo, onde está solitariamente para entrar no universo de centro disputado por muitos outros candidatos. Então é uma atitude muito arriscada. E esse é mais um motivo pelo qual o vejo como um candidato sem chances de chegar o segundo turno.

Estamos falando de um candidato cujo slogan diz, basicamente, que as minorias devem se calar. É um candidato que prega a violência como solução para conflitos, que defende a tortura, que discrimina e insulta segmentos sociais, que exalta a ditadura militar, que já defendeu o fechamento do Congresso, o extermínio de presidiários e também de opositores do regime militar. Na sua opinião, Bolsonaro representa a negação da democracia?

Não, até porque disputa há muito tempo eleições. Ele pode ter como preferência a ditadura e falar mal da democracia, mas não significa que nega a democracia porque disputa eleições.

O senhor vê algum mérito nele?

Numa disputa proporcional (para a Câmara Federal), vejo que ele foi muito sábio e estratégico. Descobriu que existe uma parcela do eleitorado no Rio que gosta desses discursos extremados, e assim tem conseguido se reeleger para vários mandatos. Mas, numa disputa majoritária, a estratégia é equivocada. Ele é um político assim (de extrema direita) como seria um político de extrema esquerda: ele busca os extremos e não consegue conquistar esse eleitor de centro que expressa a média dos valores da sociedade. Numa disputa proporcional isso dá certo. Numa disputa majoritária, não dá certo.

* A GAZETA estreia hoje uma série de sete reportagens com perfis dos principais pré-candidatos à Presidência da República, publicadas sempre às segundas-feiras.

Fotos: Google / Facebook.
Fonte: Gazeta Online.