terça-feira, 2 de maio de 2017

Redes sociais, algumas pós verdades e inúmeras mentiras

OPINIÃO: por Humberto Santos, Jornalista.

Essa brincadeira de verdade e mentira no Facebook é a prova cabal de que as pessoas perderam totalmente a noção do que é público e do que é privado e, consequentemente, do que é ridículo. A busca pelo reconhecimento e pela fama é antiga, mas atingiu níveis estratosféricos e doentios com as redes sociais.

A nossa sociedade está enferma. Os principais sintomas são a carência, o ressentimento e o narcisismo exagerados. Todos somos narcisos, ressentidos e carentes em certos aspectos e níveis. Mas a potencialização desses sentimentos é a consequência de uma sociedade que ainda não sabe lidar com a nova era digital.

Neófita, abraça e idolatra a novidade acriticamente. Demoniza o passado, como se tudo que é velho não prestasse e tudo que é novo fosse bom. Como se solução para todos os problemas fosse fazer o oposto do que vem sendo feito.

Uma sociedade que, em vez de amadurecer, infantilizou-se. Uma regressão cuja as consequências nefastas já começam a ser percebidas pelos mais experientes. Mas a ditadura dos histéricos, dos que se dizem portadores da redenção da humanidade através da prática do que eles consideram o bem, está jogando na lata do lixo séculos de avanços de nossa civilização simplesmente pelo afã de mudar, de ser revolucionário.

Não existe espaço para meio termo, para acordo, para contextualização, para a imperfeição do humano. Não.Temos que ter razão. E para termos razão precisamos derrotar alguém. E para derrotar alguém temos que guerrear e fazer revolução.

A suposta liberdade de expressão tão incensada pelos entusiastas das redes sociais é, na verdade, uma sórdida ditadura. Não, vc não é (e nunca será) livre para expressar sua opinião na internet. Pelo contrário. Fazendo isso vc cairá na armadilha já prevista por Bauman. Ficará refém. Uma vírgula mal colocada não será perdoada. Isso é o oposto de liberdade. Isso é ditadura. É radicalismo. Não. E parem com esse argumento bobo e falacioso de que basta não ler ou sair das redes.

Seria uma opção se não representasse um prejuízo claro para quem toma essa decisão. A vida real transmutou-se para o âmbito virtual. E quem precisa sobreviver hoje não pode prescindir dele. Mas a internet é um território sem lei. E em terra sem lei, sem filtros, sem contratos sociais claros, quem tem voz alta e eloquência, quem tem ênfase, quem é autoritário ganha espaço e adeptos e se torna rei.

Quem aposta na emoção em detrimento da razão (ou disfarçada dela) se dá bem. Por isso a pós verdade surge com força. A soma de dois mais dois pode ser cinco porque eu quero, eu gosto do cinco, o quatro me machuca e pronto. Que importa se o prédio vier abaixo por causa do meu novo parâmetro de cálculo? Eu quero é revolução. Precisamos zerar o mundo, bradam os idiotas.

Quem tenta ser moderado, quem tenta ponderar, quem tenta argumentar que o caminho do meio é menos traumático e mais sensato é logo enquadrado como isentão ou reacionário. E jogado na fogueira das vaidades dos neo progressistas. São pequenos ditadores com seus pequenos feudos virtuais.

Sorte nossa, pelo menos eu acho, é que Mark Zuckerberg não me parece um ser doente e do mal. Não me parece ser um Hitler ou Stalin da vida. Está mais preocupado em ganhar dinheiro e até parece ter boas intenções. Mas já dá sinais de preocupação, pois sente que sua criação está saindo de seu controle.Ganhando quase vida própria.

O que era uma ferramenta para ajudar, facilitar e promover o bem, cresceu tanto, incorporou-se tanto ao cotidiano de todos os seres humanos que virou um espelho deles. E, claro, o ser humano é imperfeito. E suas imperfeições também afloraram nas redes. A nossa noção de público e privado de trinta anos atrás não existe mais.

A nossa noção de justiça secular baseada em um sistema estabelecido por códigos e leis, mesmo capenga e imperfeita, está se diluindo diante dos tribunais da pós verdade das redes sociais, onde quem determina os culpados e as penas são turbas aleatórias e emotivas para as quais tudo pode, desde que lhes agrade emocionalmente naquele instante. Um perigo. Um retrocesso. Alguém pode objetar sobre as coisas boas das redes. Realmente vão encontrar muitas. Mas a crítica aqui não é em relação ao conteúdo. Mas sim à forma. Não se trata aqui de culpar a janela pela vista.

A maneira como se utiliza as redes, hoje, tornou-se mais importante e perigosa do que o conteúdo produzido por elas. E a responsabilidade é nossa. Uma arma não atira sozinha, mas muitas pessoas com armas nas mãos, movidas pela emoção e sem terem muita noção do estrago que podem causar, é assustador. E, hoje em dia, em termos de redes sociais, parecemos apenas crianças irresponsáveis e deslumbradas aprendendo sozinhas a dirigir o primeiro carro. E com o consentimento e entusiasmo de todos. Os acidentes aumentam a cada dia. Alguém precisa dar um freio nisso. Sinceramente, não tenho ideia de quem ou como. Mas desejo que a humanidade aprenda logo a dirigir mais prudentemente antes de acabarmos no fundo do despenhadeiro​.


* Ilustração: reprodução/Google
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