segunda-feira, 17 de abril de 2017

VIOLÊNCIA APAVORA: Guerra do tráfico, crime passional e banalização criam 'faroeste' em Pernambuco

Violência explode, e PE regride uma década com 16 assassinatos por dia


Quem vive em Pernambuco tem a sensação de que o Estado voltou dez anos no tempo quando o assunto é violência. Esse sentimento é confirmado pelos números.

Apenas em janeiro e fevereiro, Pernambuco registrou 974 homicídios -alta de 47% em relação ao mesmo período do ano passado e o maior número em dez anos.

"O perfil de quem morre em Pernambuco é o mesmo de quem mata: jovem, negro, pobre e morador da periferia", afirma José Luiz Ratton, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da violência no Estado.

Na Grande Recife, a maior parte dos assassinatos ocorre em regiões pobres e com pouca presença do Estado. Em três favelas próximas da famosa praia de Boa Viagem, por exemplo, foram cinco mortes em cinco dias da semana retrasada, segundo moradores.

Essas comunidades somam mais de 70 mil habitantes e convivem com escasso saneamento básico: boa parte dos barracos fica em palafitas sobre o poluído rio Capibaribe.

O cenário de pobreza extrema fica na fronteira com prédios de luxo -um dos maiores shopping centers da América Latina foi construído ao lado de uma das favelas.

Moradores dizem que a área sofre com abusos policiais e guerra entre pequenos traficantes, mas também com crimes passionais.

Recife também sofre com assaltos a ônibus. Levantamento do sindicato dos motoristas e do "Jornal do Commércio" aponta mais de mil roubos neste ano -o governo Paulo Câmara (PSB) contesta e diz que não passam de 500.

Com os 974 homicídios nos meses de janeiro e fevereiro, a média é de quase 17 por dia. Isso representa um aumento de 47% em relação ao mesmo período de 2016.

O Estado de São Paulo, com população quatro vezes maior, contabilizou 622 assassinatos nesses meses.

ONDA DE VIOLÊNCIA EM PERNAMBUCO
Vítimas de homicídios dolosos e latrocínios no Estado, em janeiro e fevereiro deste ano

                                974                                                                              622
                    PERNAMBUCO                                                        SÃO PAULO *
*que tem população 4 vezes maior

47% de aumento em relação ao mesmo período de 2016
16 mortes por dia, em média

O projeto tinha como meta reduzir os homicídios em 12% ao ano. Para isso, apostava na integração das polícias para melhorar a investigação, bônus a policiais que resolvessem mais crimes e participação popular na criação de políticas públicas de prevenção e combate à criminalidade.

Em 2007, foi criada a primeira delegacia especializada na resolução de homicídios. O Estado foi dividido em 26 áreas, e os responsáveis eram cobrados em reuniões semanais com o governador.

Nos anos seguintes, as mortes violentas caíram. Em 2013, Pernambuco teve 3.100 assassinatos, o menor número desde que começou a contabilizar esses crimes.

O próprio governo aponta outro fator: os grupos de extermínio ligados a ex-policiais. As quadrilhas fazem segurança particular, cobram taxas de comerciantes e "prestam serviços" de pistolagem.

Um deles, o Thundercats, foi desmantelado em 2008, mas um de seus líderes continua solto. Ex-soldado da Polícia Militar, Marcos Antônio da Silva responde à Justiça por 25 assassinatos. "Nós temos, sim, milícias armadas atuando no Estado, isso não é novidade", reconhece Angelo Gioia, secretário de Defesa Social (segurança pública).

PADRÃO - Desde dezembro, a PM faz operação padrão, diminuindo o número de homens nas ruas. Os policiais reivindicam que seus salários sejam equiparados aos dos policiais civis -cerca de R$ 6.000.

Para aumentar os agentes nas ruas, o Estado paga uma remuneração extra para que trabalhem durante as folgas. Agora, durante a operação padrão, os policiais se recusam a fazer esse "bico" oficial.

Também não deixam os quartéis se houver problemas de estrutura. "O PM não pode sair às ruas com coletes e munições vencidos, armamento que trava na hora de atirar, nem viaturas sem condições de rodar", diz Nadelson Leite, vice-presidente da Associação de Cabos e Soldados.

O governo afirma que a operação padrão é um dos fatores que contribuem para o aumento dos crimes. O governador tem se recusado a negociar salários com a associação -diz que só negocia com os comandantes da tropa.

A Polícia Civil também reclama da falta de efetivo e precariedade. Uma portaria do governo previa que o Estado deveria ter 10 mil agentes em 2015: dois anos depois, há cerca de 5.000. Algumas delegacias foram interditadas pela Justiça por falta de estrutura.

Com a explosão das mortes, a gestão Câmara anunciou a recontratação de 800 policiais aposentados para atuarem em serviços internos e liberar agentes efetivos para investigações. O salário é de R$ 1.800 por 40 horas semanais.

OUTRO LADO - o secretário da SDS Angelo Gioia, ex-delegado da Polícia Federal, assumiu o cargo em outubro do ano passado, a convite do governador Paulo Câmara (PSB).

"Tivemos paralisações brancas da Polícia Civil, da Científica e, depois, da Polícia Militar. Evidentemente, isso traz um custo operacional." Gioia critica a forma como são negociados reajustes salariais das polícias. Para ele, governos estaduais não devem negociar diretamente com associações de policiais, e sim com comandantes.

"Essa negociação com associações trouxe um grande prejuízo para a tropa, porque você tira o comando dos oficiais. Isso enfraquece a relação hierárquica e de disciplina." Eduardo Campos (PSB), que governou PE entre 2007 e 2014, costumava se sentar à mesa com associações de PMs para negociar reajustes.

Sobre o aumento dos homicídios, Gioia afirma que os dados "preocupam Pernambuco". "Estamos num trabalho intenso, seja a Polícia Civil como a Militar, focados na redução desses números. Nós precisamos focar as investigações em grupos de extermínio e quadrilhas de tráfico de drogas, de maneira a reduzir a criminalidade, prendendo essas pessoas".

O secretário afirma que 89 pessoas envolvidas com tráfico e com grupos de extermínio foram presas -mais de 20 operações da Polícia Civil foram realizadas neste ano. Ele diz que a PM vai aumentar o policiamento em áreas com alto índice de assassinatos.

Gioia alega que cerca de 16% dos assassinatos são esclarecidos em Pernambuco. "Ainda é pouco, mas estamos acima da média nacional".

O secretário diz que o programa Pacto Pela Vida segue valendo como forma de reduzir os homicídios. "Ele existe e avança, mas ele permite também ajustes e correções. É isso que está sendo feito."

Na quarta-feira (12), o governo anunciou um investimento de R$ 280 milhões em segurança pública nos próximos dois anos. Também informou que 4.800 novos PMs serão incorporados até 2018.

Fonte: Folha de São Paulo.