quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Atletas da Chape que não viajaram pensaram em abandonar o futebol


Uma semana após o acidente que vitimou 71 pessoas, incluindo 19 atletas e 24 membros da delegação da Chapecoense, os jogadores do clube que ficaram em Chapecó buscam forças para continuar com a carreira.

Mas não conseguem esconder os olhos marejados e o semblante de dor e tristeza.
O zagueiro Rafael Lima, 30, é um dos mais abalados. No clube desde o final de 2011, o jogador participou dos acessos para a Série B e Série A do Brasileiro. Ele tem 206 jogos com a camisa alviverde.

"Ainda parece que é tudo mentira. Fecho os olhos e vejo meus companheiros, sonho com eles. Essa ferida jamais vai cicatrizar", diz.

"Uma situação que era para ser inesquecível para o lado bom se tornou inesquecível para o lado ruim", complementa o defensor, que foi contratado pelo diretor de futebol do clube catarinense, Cadú Gaúcho, que também morreu no acidente aéreo.

Com contrato até o final do ano, ele afirmou que ainda não planejou seu futuro.

"Se eu estivesse estabilizado financeiramente, eu pararia. Não é da boca para fora que falo isso. Temos a certeza que vamos morrer um dia, mas da maneira que foi ceifada a vida desses guerreiros não dá para acreditar. Fazia planos para jogar mais oito, nove anos. Agora já não sei."
O sentimento de Rafael Lima é compartilhado por Neném, 34, com quem compartilha o vestiário desde 2011.

"Na emoção, vem esse pensamento [de se aposentar], mas na condição atual a gente sabe que não é possível. Tenho uma família para cuidar", afirma o meia.

A reportagem ainda tentou contato com o meia Hyoran, 23. No entanto, ele não quis se pronunciar por estar muito abalado. Natural de Chapecó, ele foi negociado com o Palmeiras e não viajou porque se recuperava de lesão.

Já o goleiro Nivaldo, 42, anunciou sua aposentadoria logo após a tragédia. Ele fará parte do novo departamento de futebol do time, que está sendo montado.

RECONSTRUÇÃO - o clima de tristeza e sofrimento impregna a cidade de Chapecó e a Chapecoense, que se prepara para fortalecer o lado emocional dos jogadores que vão permanecer no elenco e os reforços que devem ser contratados.

De acordo com o clube, a expectativa é trazer 22 atletas para temporada de 2017.

"Primeiramente, vamos fazer um trabalho em equipe e, em um segundo momento, individualizado. Ele vai ser necessário, porque o clima está muito pesado", afirma Irlene Würzius, 54, assistente social da Chapecoense, responsável por coordenar o trabalho de recuperação psicológica dos funcionários.

"Eles [os jogadores contratados] vão sentir isso assim que chegarem à cidade e vão trabalhar com profissionais que ainda estão aqui", diz.

A preocupação também é grande com os jogadores das categorias de base. Logo após o acidente, muitos foram atendidos e liberados para visitarem as suas cidades.

A equipe sub-17 retorna ao clube na próxima segunda-feira (12), enquanto o time sub-20 volta no dia 19.

"Desde o momento da tragédia os jogadores da base quiseram ir para suas casas porque necessitavam ficar com os pais, e concordamos. Eles foram atendidos pela nossa equipe, por nossos parceiros e os liberamos. Eles devem retomar a partir da próxima semana a rotina de trabalho", conclui Irlene.

Atletas que não viajaram :

Lourency, 20 - Após subir das categorias de base, disputou 14 jogos na temporada e fez um gol
Lucas Mineiro, 20 - Meia, foi contratado neste ano mas fez apenas três jogos pelo clube
Hyoran, 23 - Meia-atacante já está contratado pelo Palmeiras e não viajou por lesão
Martinuccio, 28 - Atacante foi bicampeão brasileiro com o Cruzeiro. Não viajou devido a lesão

Nenén, 34 - Um dos mais velhos, o meia esteve em todos os acessos no Brasileiro

Moisés, 25 - Volante, chegou neste ano à equipe e fez apenas 13 partidas pelo clube

Legenda: Rafael Lima, 30 - Zagueiro, está na Chapecoense desde 2012, mas perdeu espaço

Claudio Winck, 22 - Lateral, foi emprestado neste ano do Inter, mas teve pouco espaço


Demerson, 30 - Zagueiro, passou por outros 11 clubes até chegar no time de Chapecó

Fonte: Folha de São Paulo.