quinta-feira, 3 de novembro de 2016

PASSIRA - Rênya: a prefeita que quebrou paradigmas

Rênya Karla Medeiros da Silva (de azul)

No Nordeste arraigado de preconceitos, mitos e tabus que pareciam invioláveis, as eleições municipais deste ano abriram paradigmas também no campo da sexualidade. Em Passira, no Agreste Setentrional, a 79 km do Recife, onde a feminilidade brota desde cedo na tradição de tecer bordados, com peças que ganharam o mundo pela sua originalidade e capricho no design, a prefeita eleita, Rênya Carla Medeiros da Silva, 37 anos, filiada ao PP, ganhou notabilidade não apenas por ter derrotado um típico coronel do asfalto, mas por ser assumidamente homossexual.

Na linguagem LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais - Rênya se define como lésbica. Diante da sociedade conservadora da sua terra, sem nenhum receio por ser uma pessoa pública, oficializou, há quatro anos, a união conjugal com Karla, uma conterrânea de 26 anos, que tem um filho de sete anos. Passira não é diferente de nenhum grotão machista do Nordeste, onde impera o viés preconceituoso aos que fogem do padrão em opção sexual.

Por isso mesmo, ao longo da campanha, os adversários de Rênya a agrediram no campo da afetuosidade. Os bombardeios, entretanto, produziram efeito contrário. A campanha ganhou musculatura e passou a ser uma ameaça ao fim do coronelismo no município, pela sua bela história de mulher pública.

Rênya não caiu de paraquedas em Passira. Nascida em Taó, comunidade pobre da zona rural, a 13 km do centro urbano, já havia sido testada nas urnas nas eleições de 2012, eleita vereadora com 687 votos.

No mesmo ano, não foi a única homossexual no Nordeste a ganhar do povo legitimidade para defender as bandeiras do movimento, que tem como símbolo na Câmara Federal o deputado Jean Wyllys. Em Cajazeiras e Pilar, na Paraíba, e Palmares, Zona da Mata pernambucana, foram eleitos, respectivamente, Julcinário Felix (PTB), Shirley Costa (PP) e Paulete (PHS). Naquela eleição, de 150 candidatos homossexuais que pediram o batismo das urnas, 12 foram aprovados.

Em Passira, entretanto, Rênya nunca usou o movimento LGBT como bandeira, nem quando se elegeu vereadora nem tampouco, agora, quando derrotou o prefeito Severino Silvestre, do PSD, por uma diferença de apenas 116 votos. Na contabilidade das urnas, teve 10.013 votos contra 9.897 votos do adversário. “Enfrentei a maior guerra eleitoral e psicológica da minha vida”, diz ela.

Sua transferência da Câmara para a Prefeitura Municipal, certamente será objeto de estudo sociológico no futuro. Com pinta e ação de coronel, o prefeito, que nunca imaginou ser batido nas urnas por uma pessoa simples, espalhou terrorismo, disseminou ódio e preconceito. "Venci o medo, o dinheiro e as agressões com a minha história de vida. Aos que me atacavam no campo da sexualidade, nunca dei ouvidos, porque sei separar minha pessoal da pública”, desabafou a prefeita eleita.

Além de comerciante, Rênya é conhecida por outro viés da sua personalidade: o solo do sítio onde foi criada com seus três irmãos é rico em água, produto raro na região. Ali, ela abriu ao público duas fontes de água potável, que viraram objeto de romaria por parte da população.

Sua família tem três carros pipas para socorrer os sedentos, que representam a maioria da população. “Na seca, que é uma rotina em nosso município, a demanda é muito grande, mas nossos poços são profundos e jorram água em abundância”, diz.

Num deles, o irmão Evandro Medeiros, 52 anos, foi encontrado, ontem, por volta de 11 horas, abastecendo um pipa para atender uma comunidade rural atingida pela estiagem. Orgulhoso pela eleição da irmã, Medeiros disse que os adversários nunca tiveram coragem de agredi-la em sua frente. “Eles falavam mal dela por trás, não tinham coragem de dizer as coisas olhando no meu olho porque são covardes”, desabafou.

O agricultor Cicero Soares, 55 anos, da comunidade de Taó, revela que votou em Rênya com fé e orgulho. “Para tudo que ela se candidatar eu voto, porque ela é do povo e faz as coisas por nós”, afirmou.

De fato, a prefeita eleita tem uma afinidade impressionante com a população. A jovem Ana Karla, residente na cidade, a esperava na última quarta-feira (2) pela manhã na entrada do seu escritório para presentear-lhe com uma peça de bordado e uma cartinha amorosa, na qual revelava ser sua fã e ter a certeza de que será bem sucedida na Prefeitura. “Receba esta pequena lembrança de quem te admira muito”, dizia um dos trechos da carta.

A construção da vitória de Rênya contou também com caras familiares no município, entre os quais o ex-prefeito Miguel Freitas, um dos coordenadores da campanha a quem entregou também a missão de abrir as negociações para a transição de governo com o prefeito. “Já estive com Miguel na campanha de 2012 quando apoiamos o deputado Henrique Queiroz, derrotado por Silvestre. Miguel é correto e nos ajudará bastante na gestão”, destaca a prefeita eleita.

Comerciante de sucesso em Passira, Roberto Felix da Silva, conhecido como “Boy de Zezé”, rompeu com o prefeito e aceitou compor a chapa de Rênya apostando na mudança. “Silvestre fez uma péssima gestão. Na eleição passada, ajudei muito na sua eleição, mas ele se afastou de todos os que contribuíram para sua vitória, o que me fez apostar num projeto novo, representado por Rênya, uma mulher simples, que sabe dialogar com o povo. Sua eleição não foi fácil. Aqui, comemos o pão que o diabo amassou”, afirmou.

OPOSIÇÃO - até a oposição reconhece os bons propósitos da prefeita eleita. Vereador mais votado no município, com 1.282 votos, Toinho de Antônio Luis, aliado do prefeito derrotado, integrante da família Luis, que elegeu mais três dos 11 vereadores de Passira, afirma que está disposto a apoiar projetos de interesse do município. “Não vou fazer oposição burra e irresponsável. O que for bom para Passira terá o meu apoio”, garante. Na Câmara, Rênya só terá de fato ao seu lado três dos 11 vereadores, eleitos em sua coligação.

PATRIMÔNIO CULTURAL DO BORDADO - capitão da renda e do bordado, Passira tem 28 mil habitantes e sua população vive da agricultura, do artesanato e da movimentada arte de bordar, vista e identificada em quase todas as casas da cidade. A prática do bordado manual ganhou amplitude a partir da década de 1980. Com o tempo, Passira passou a ser identificada como a “Terra do Bordado Manual”.

A fama se consolidou e a atividade gera milhares de empregos e a cidade virou patrimônio cultural do bordado. Uma vez por ano ocorre a Feira do Bordado Manual de Passira, evento que difunde o trabalho das bordadeiras e faz a comercialização das suas peças de forma mais agressiva, atraindo turistas da região e de outros Estados.

As artesãs do bordado são, também, empresárias, tendo já criado uma cooperativa e também uma associação para impulsionar as vendas. A última Feira do Bordado Manual de Passira movimentou mais de R$ 300 mil em três dias. Lá, é montada uma estrutura que conta com oficinas e concurso de bordadeiras. A homenageada deste ano é a professora Ignês Costa, uma das fundadoras do evento, em 1985.

Existem registros de que o padre Ibiapina mandou construir em Passira uma capela dedicada a São José. O povoado se desenvolveu em torno da capela com o nome de Pedra Tapada, pois existiam na região tanques naturais em forma de pequenas cacimbas, entre os vastos lajedos que se espalham no leito do rio.

O nome está relacionado à serra Passira, próxima à cidade. Vem do tupi-guarani e quer dizer "acordar suave". O IBGE dá outro significado para o nome na língua tupi: segundo o historiador Sebastião Galvão, significa ponta de flecha. O distrito foi criado com a denominação de Malhada, pela lei municipal nº 2, de 19 de dezembro de 1892, subordinado ao município de Limoeiro. Em 1943, o nome mudou para Passira. O município foi criado por pela lei estadual nº 4981, de 20 de dezembro de 1963.

FONTE: Folha de PE / Magno Martins.