terça-feira, 1 de novembro de 2016

“O PSB trabalhou contra, o tempo todo”, diz Antônio Campos

Ele destacou que o apoio do governador Paulo Câmara foi inexistente no 1º turno e formal no 2º. “Sequer recebi um telefonema do Palácio depois das eleições”, contou


Um dia após o resultado do segundo turno ser divulgado, o advogado Antônio Campos, que concorreu à Prefeitura de Olinda pelo PSB, fez um desabafo: revelou que foi abandonado pelo seu partido, que - segundo suas palavras - desde as pré-convenções tentou retirá-lo da disputa.
“O PSB tentou, várias vezes, desestabilizar minha campanha”, afirmou Campos, em entrevista exclusiva ao jornal Folha de Pernambuco. Ele também destacou que o apoio do governador Paulo Câmara foi inexistente no 1º turno e formal no 2º. “Sequer recebi um telefonema do Palácio depois das eleições”, contou. Ele criticou, ainda, a postura do partido em relação à candidatura de Raquel Lyra (PSDB), em Caruaru, classificando-a  de "um equívoco". Comentou sobre a ausência da cunhada e correligionária Renata Campos no seu palanque e lembrou que, apesar de não ter vencido as eleições olindenses, se considera vitorioso pelos 90.558 votos obtidos. Um resultado, ressalta, que alcançou "sozinho". Campos assegura que é candidato em 2018 e que não vai deixar o PSB. "Nasci e vou continuar na política", disse. Confira abaixo.

Como o senhor avalia o resultado das eleições em Olinda?
Saímos vitoriosos dessa campanha. Demonstramos força e criamos um sentimento de esperança ao povo olindense, tão castigado nos últimos 16 anos. Ir ao 2º turno com 90.558 votos, tendo chegado a esse resultado praticamente sozinho, demonstra que nosso projeto inovador para a cidade com ideias, propostas e soluções reais, nos deu uma verdadeira vitória política. Desde o início, sabia das dificuldades que iria enfrentar e minha candidatura já era para também testar o pretenso campo aliado. Estamos numa época de resistência e aprendi com meu pai que “vencer é a própria capacidade de resistir”. Quando Arraes foi candidato em 1998, muitos não entenderam, ante as dificuldades eleitorais e políticas da época. No entanto, talvez isso tenha propiciado a eleição de Eduardo Campos co­mo Governador em 2006.
O senhor contou com o apoio do PSB estadual nessas eleições?
O PSB estadual durante o período pré-convenção tentou, várias vezes, desestabilizar a minha candidatura. A fragmentação das candidaturas no 1º turno teve o apoio de setores expressivos do Palácio do Governo. Um dos prêmios de Augusto Coutinho foi ter a Junta Comercial de Pernambuco. Não tenho um cargo no Governo de Paulo Câmara. O Governador não foi no 1º turno e fez um apoio formal no 2º turno. O PSB Estadual trabalhou contra o tempo todo. Isso se deve a não querer o surgimento de uma força nova nos quadros do PSB. Sequer recebi um telefonema do Palácio após o resultado das eleições. É o mínimo de elegância, até porque em nenhum momento ataquei o PSB e o governador nas eleições.
E a vitória do Professor Lupércio, como o senhor encarou?
Não enfrentei Lupércio, mas a máquina do PC do B e forças expressivas do PSB Estadual, que propiciaram sua candidatura no 1º turno e o ajudaram nos bastidores no 2º turno. As poucas participações do PSB estadual em Olinda foram formais.
Por outro lado, não deu tempo em uma eleição curta, no 2º turno, de desconstruir o discurso do adversário, que desqualificou o debate para assuntos co­mo “filho de Olinda x forasteiro”, “rico x pobre”, as mis­tificações nas redes sociais e os boatos na periferia de Olinda.
 
Houve um excesso de judicialização na campanha?
Acho que não. Algumas vezes tivemos que recorrer à Justiça para frear ataques e baixarias e para denunciar fatos. O Professor Lupércio terminou sua campanha tendo declarado à Justiça Eleitoral ter arrecadado R$ 151.780,00 e gasto R$ 88.701,99, o que é objeto de investigação eleitoral. Ele pode até o dia 19 de novembro fazer a prestação de contas final, mas tal postura mostra a falta de transparência na sua campanha e seu volume de propaganda de rua é incompatível com esses gastos a olhos vistos.

Pretende ser oposição em Olinda? Como?
Estou decidido a continuar a fazer política em Olinda. Olinda abre um novo ciclo nessa eleição e serei um dos líderes de uma oposição responsável na cidade, vigilan­te. Sempre estarei ao la­do das melhores causas de Olinda. Olinda é uma cidade desafiadora para se administrar ante a situação em que se encontra e espero que o Professor Lupércio e as forças que o apoiaram cumpram com as promessas que fizeram durante as eleições.
O senhor continuará na política?
Nasci nela e continuarei na política. Sou candidato em 2018. Não vou sair do PSB, inclusive vou participar das eleições nacionais em novembro de 2017. Esse partido foi construído, em grande parte, pelo meu avô e tenho a honra de presidir o Conselho Deliberativo do Instituto Miguel Arraes, por convocação da minha avó Magdalena Arraes, cujo centenário de nascimento de Arraes celebramos esse ano. Teremos uma programação extensa de comemoração ao centenário, em dezembro.
O senhor é candidato a quê?
Na hora certa falarei (risos)
E o resultado das eleições do PSB no Estado?
O PSB precisa rever algumas posições. A eleição de Raquel Lyra, em Caruaru, mostra, ao meu ver, um dos equívocos da postura adotada pelo PSB nessas eleições, como também a retirada de Pedro Mendes da vice em Ipojuca, que ajudou a derrotar Carlos Santana. O PT perdeu a eleição no Recife. Em Jaboatão e no Cabo, o PSB errou também.
A ausência de Renata Campos e de João Campos foi visível. O que houve?
Acho que Renata Andrade Lima Campos não foi grata comigo. Fui um irmão leal. Fui o cidadão que mais defendeu Eduardo Campos no famoso caso dos precatórios, tendo coordenado sua defesa jurídica, e sofrido muito, pessoalmente, com o episódio, ante uma grande perseguição de Jarbas à época, mesmo não tendo participado do caso. As mesmas forças que atacaram duramente Eduardo, tiveram o apoio de pessoas da minha família, agora, na eleição em Caruaru, enquanto me abandonaram. Essa é uma história que remonta há muito tempo, ela jamais gostou dos Campos, inclusive do meu pai, mas a perdoo e desejo muita paz a ela, que comanda muito a política do PSB no Estado, sem querer aparecer ostensivamente. A perda de Eduardo, aos 49 anos, é muito duro para todos da família e deveria ensinar mais humildade e humanidade. Quanto a João Campos, ele é um dos sucessores de Eduardo Campos, inclusive já disse isso diversas vezes. Pedro Campos, seu irmão, é um grande talento também, por exemplo. Não disputo esse espaço. Apenas digo que Eduardo é meu único irmão e reproduzo um depoimento dele, em vídeo. Sou um Campos Arraes na política e deve haver espaços para todos, não deveria haver discriminações ou perseguições.
E sobre a postura e importância da sua mãe, Ana Arraes, nessas eleições?
A minha mãe, pelo cargo que exerce, não pode participar da campanha eleitoral. Mas o grande nome político e ligação política da família Campos e Arraes é Ana Arraes, filha de Miguel Arraes, mãe de Eduardo Campos, que viveu o período difícil da ditadura, foi eleita por duas vezes deputada federal e é ministra do TCU, que poderá se aposentar e voltar à política.
O seu 1º resultado eleitoral lhe deixa desanimado?
Eduardo Campos perdeu a eleição para prefeito de Recife, em 1989, disputando com Jarbas Vasconcelos, obteve apenas 3% de votos e nem por isso desanimou e foi duas vezes governador de Pernambuco. Vejo o futuro com fé e esperança. Resistir é uma forma de ação hoje.
 
Fonte: Folha de PE.