domingo, 8 de novembro de 2015

Crise política é janela de oportunidade para tele-políticos

Com todas as pesquisas mostrando uma consistente e elevada rejeição aos partidos políticos – a última da Datafolha mostrou que 7 em 10 paulistanos não tem afinidade com nenhuma das 35 legendas atuais – e com menos de 1% da população brasileira confiando nos partidos, é sintomático que na última pesquisa do Datafolha dois apresentadores de TV – Celso Russomanno e José Luiz Datena – apareceram, somados, com quase a metade (47%) das preferências para as eleições municipais do ano que vem. 
Russomanno já foi candidato em 2012 (começou a naufragar quando circulou que uma das suas propostas era aumentar a tarifa de ônibus conforme o trecho percorrido) e é deputado federal experiente, mas ainda assim, a exemplo de Datena, tem como base principal de sua popularidade a performance televisiva, onde atua na ‘patrulha do consumidor’. Ambos estão longe do figurino do político tradicional e sua popularidade certamente reflete a rejeição ao sistema: eles são “de fora”, digamos assim, aos olhos do telespectador-eleitor.


A desconfiança em relação ao establishment político não é uma questão unicamente brasileira. Recentemente a Guatemala elegeu Jimmy Morales, um comediante de TV que nunca teve cargo público, para presidente. 
Na corrida para a escolha do candidato do Partido Republicano à presidência nos EUA lideram, até aqui, o neurocirurgião Ben Carson, um “novato”, e o empresário Donald Trump, até há pouco tempo apresentador do reality show The Apprentice. Ambos incorporam o sentimento anti-establishment de parte do eleitorado americano, no caso, republicano.
Já na Itália o sentimento anti-política manifestou-se com força em um movimento liderado por um comediante midiático, Beppe Grillo. Este conseguiu, em 2013, conquistar um quarto dos votos, no que pese, nos anos posteriores, o movimento ter enfrentado uma série de dissidências. No final de 2014, Grillo apareceu na internet em uma mensagem de fim de ano a seus apoiadores falando de dentro de uma catacumba improvisada – como um ator, que ele assumidamente é.
Não creio que ser apresentador de TV e político seja, em si, um problema. Goste-se ou não dele, Ronald Reagan foi, antes de ser presidente americano nos anos 1980, um ator de cinema. Isto não o impediu, pelo contrário o ajudou, a encarnar o espírito conservador de uma época, que levou o mundo para uma guinada liberal e a derrocada da União Soviética, com a ajuda de líderes como Margaret Thatcher na Inglaterra e o Papa João Paulo II no Vaticano.
Ser bom de TV – aparentar sinceridade na telinha, saber olhar a câmera etc – é quase um pré-requisito para o político de hoje, no Brasil e em qualquer lugar. Dilma talvez seja a exceção que apenas confirma a regra: ao vivo, sem teleprompter, a presidente é muito ruim de TV, embora seja atenta aos aspectos midiáticos de sua função.
Seja como for, a questão é saber o que os tele-políticos, no Brasil e em outras partes do mundo, representam e o que pretendem fazer – em torno a quem e ao que gravitam. Não basta apenas galvanizar o sentimento anti-política. Isto talvez seja até a parte mais fácil. O nó é o que vem depois. O que farão à frente de administrações públicas que interferem no cotidiano de milhões de pessoas. Dominar as artes do tablado, apenas, não basta.
Fonte: Yahoo Notícias / Blog Rogério Jordão.