domingo, 6 de setembro de 2015

Playboy: o que o maior colecionador do mundo da revista tem a contar

Estênio Guerra, o Guerrinha, em sua banca com as coleções da Playboy 
(Imagem: Nathália Carvalho)
"Elas (as mulheres) que nos perdoem - desta vez a revista é sua, homem brasileiro". Victor Civita, ao escrever esse trecho do editorial da primeira Playboy no país, ainda sob o nome de A Revista do Homem, sabia muito bem o que queria em agosto de 1975: fazer uma publicação para apresentar ao homem moderno o melhor do mundo que o cercava. Lazer, literatura, sofisticação, beleza, vida profissional, viagem e, claro, mulher. A redação tinha comando de Mário Escobar de Andrade e os textos daquela edição foram assinados por nomes como Jorge Amado, Paulinho da Viola, Franco Montoro, Célio Borja e Pelé. A edição pode ser vista com facilidade em São Paulo, mais precisamente na Banca do Guerrinha, o maior colecionador da marca no Brasil. Do número 01 ao último exemplar, o especial de comemoração dos 40 anos, a revista evoluiu lado a lado com Estênio Guerra. 

Guerrinha já é velho conhecido da imprensa, mas na Playboy mesmo ele só apareceu em uma pequena matéria veiculada em 2011. Acostumado a dar entrevistas, ele recebeu a equipe do Portal Comunique-se, para mostrar seu acervo e revelar como administra o negócio que virou sua principal renda financeira. A coleção começou de maneira despretensiosa quando ele ainda tinha 11 anos e convencia um senhor a comprar as revistas em seu lugar. "Naquela época, não podia ter Playboy assim exposta na banca. A censura proibia qualquer tipo de pornografia. Quando o jornaleiro ia vender, ele olhava para os lados antes de pegar a edição e repassar ao cliente". Com o impresso em mãos, Guerrinha alugava para os amigos na escola. Ele garante que a ideia rendeu muito dinheiro. "Saía da aula com os bolsos cheio de moedas e comprava tudo que queria".
Editorial assinado por Victor Civita na 1a edição, em agosto de 1975

Quem pensa que, antes de transformar as revistas em uma empresa, Guerrinha comprava as publicações para ver as mulheres, está certo. Mas ele também lia as reportagens e comenta que o conteúdo editorial é "de primeira". "Lia sobre as garotas da capa", diz, ao rir. "Queria mesmo era ver as fotos, mas as reportagens são ótimas. A Playboy tem tratamento diferente para os textos".
Muita coisa na vida de Guerrinha aconteceu por causa da coleção. A começar, claro, pelo ciúme que as revistas causavam em seus relacionamentos. Uma vez, conta, uma namorada mais velha se enfureceu e jogou todas as revistas pela janela do prédio. "Peguei minhas coisas e fui embora. Esse relacionamento durou três anos". Mais tarde, ele teve a chance de conhecer uma "mineirinha muito gente boa". Quando ela descobriu as publicações, foi enfática: "ou as edições, ou eu!". "Gostava muito da Playboy. Então, deixei a mulher e fui embora. Terminei o namoro". A saudade falou mais alto. Guerrinha foi atrás da mineira, fez um acordo para ter a Playboy e o relacionamento. Atualmente, o romance deu vida a três filhas e ao casamento de mais de 30 anos.
As brigas, avalia ele, fez com que percebesse a chance de negócio com as revistas. Ao se mudar para São Paulo (o colecionador nasceu no Ceará, mas teve casa no Rio de Janeiro antes de morar na capital paulista), resolveu ter uma banca. A inauguração aconteceu no final da década de 1970. No primeiro local, ele sofreu cinco assaltos. A situação só foi resolvida quando se mudou para o outro lado da rua, em um espaço da empresa Nicom Materiais para Construção. "O dono daqui ajuda todas as pessoas do bairro. Quando chove, ele doa material para arrumarem as casas e quando é preciso até dá dinheiro. Não tem quem não o ame e respeite, por isso ninguém mexe aqui (no depósito e na banca)".
Guerrinha com a primeira e a última edição da Playboy

Desde então, o formato de trabalho na banca funciona da seguinte maneira: compra, venda e aluguel. Guerrinha compra edições raras e sempre que sai a revista do mês, 100 exemplares são dele. "Devido a minha experiência, já sei quando a capa vai vender. Então, compro mais que 100, pois sei que no futuro vai vender". Na banca do colecionador, as mais raras podem custar mais de R$ 10 mil. Atualmente, ele tem nove edições da revista 01 da Playboy brasileira. Uma das mais procuradas, a da Xuxa, também aparece mais de uma vez na prateleira. Ao avaliar o trabalho da marca durante as últimas quatro décadas, o profissional explica como vê o trabalho da publicação. "O que não dá certo para a Playboy são essas BBB's. Os homens já viram tudo ali no pay-per-view, vão comprar a revista para quê? Pode ver que são as edições menos vendidas", criticou. Sobre a edição especial de aniversário, ele comenta que a ideia da Playboy foi boa, mas que muitas capas ficaram de fora da seleção que reúne as "40 mulheres fundamentais para a história".
Guerrinha não deixa de falar como a Playboy soube usar a tecnologia para melhorar seus negócios. "Tudo evoluiu e a revista ficou muito boa. A qualidade dos textos e da fotografia, tudo muito mais bonito. Gosto da mudança, até o papel ficou melhor". Falando em papel, questionado sobre a possibilidade do fim do meio impresso, o colecionador expressa um misto de tristeza e felicidade. "Estou torcendo para que isso não chegue até a Playboy. Não quero que eles parem de imprimir a revista! Mas, se um dia acontecer, estarei rico. Vou ser o único a vender Playboy para o Brasil inteiro. Meu acervo não duraria dois anos, pelas contas que já fiz", comenta. De acordo com ele, o mais imporante é ter a coleção. Ele garante que jamais vai vender todas as revistas. "Tenho muito medo de ficar sem as minhas revistas. Até quando chove eu fico sem dormir achando que a água molhou tudo. Cuido bastante do acervo". Guerrinha honra seu sobrenome. Para trabalhar com a coleção, precisou investir em uma batalha rumo ao seu sonho. Hoje, ele conta sua história com sorriso que não deixa mentir: é um vencedor.
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